A vida é movimento. Nada nela é estático, tudo flui. Mas o que fazemos com isso? Em vez de abraçar esse fluxo, tentamos controlar. Planejamos, projetamos, desenhamos o caminho ideal. Mas a verdade é que a vida não segue roteiros pré-definidos.

E, quando não sai como queremos, sofremos. A frustração vem, a ansiedade toma conta, e nos pegamos perguntando: por que as coisas não acontecem do jeito que imaginei?

Eu vejo isso o tempo todo no consultório. Pessoas que se sentem paralisadas quando o cenário muda. Que acreditam que só existe uma maneira de as coisas darem certo – a maneira que elas previram. Mas será que a vida realmente funciona assim?

Essa reflexão me lembra um conceito muito importante dentro do processo psicoterapêutico vivencial de Tereza Ertal, que é a abordagem que eu trabalho. São os três estágios do autoconhecimento e do desenvolvimento emocional. Eles representam não apenas um processo dentro da terapia, mas também um ciclo natural que vivemos em diversas fases da nossa vida.

1º Estágio: Ser-para-o-outro – Quando acreditamos que o mundo determina quem somos

No começo do processo terapêutico – e da vida em geral – muitas vezes nos vemos como vítimas das circunstâncias. Tudo o que nos acontece parece ser culpa do outro.

Alguém nos tratou mal? Nos sentimos injustiçados e atribuímos isso à maldade do outro.

Nosso chefe não reconhece nosso esforço? Assumimos que ele não gosta de nós.

Nosso relacionamento não vai bem? A culpa é sempre do parceiro, que não nos entende.

Nesse estágio, vivemos reagindo ao que os outros fazem, nos justificamos pela ação do outro e não enxergamos nosso próprio papel na situação. Ficamos paralisados, esperando que algo externo mude para que possamos agir.

Muitas pessoas passam a vida inteira presas nesse lugar. Mas, para quem busca o autoconhecimento, chega um momento em que percebemos que o problema não está apenas fora – está também dentro. E isso nos leva ao segundo estágio.

2º Estágio: Ser-para-si – O olhar para dentro

Aqui, algo muda. Começamos a nos perceber. A enxergar nossas emoções, nossos desejos, nossos limites. Começamos a dizer não. Passamos a nos posicionar mais, a entender que temos escolhas.

Nesse momento, muitos se tornam mais firmes, até rígidos. Como se estivessem compensando anos de silenciamento, agora é a hora de se fazer ouvir.

Por isso, esse estágio pode parecer egocêntrico. Muitas vezes, a pessoa que antes só cedia, agora impõe. Quem antes aceitava tudo, agora rebate. Quem antes justificava tudo pelo outro, agora se coloca como prioridade máxima.

E isso é ruim? Não. Isso é parte do processo.

É um momento de construção da identidade. De fortalecimento. De dar nome ao que se sente, ao que se deseja. Mas ele ainda não é o fim do caminho. Porque se ficarmos apenas no ser-para-si, corremos o risco de viver num estado de confronto constante, onde precisamos afirmar nosso espaço o tempo todo.

A verdadeira maturidade emocional acontece no terceiro estágio.

3º Estágio: Ser-para-si-para-o-outro – O equilíbrio entre o eu e o nós

Esse é o estágio onde a coexistência verdadeira acontece.

Aqui, já não é mais sobre você ou sobre o outro. É sobre o nós.

Você já se conhece. Já entende seus limites, suas necessidades. Mas também compreende que existe um outro ali, e que esse outro não precisa ser um adversário.

A diferença desse estágio para o primeiro é que, quando você cede, você não cede porque sente que deve ou porque tem medo de perder algo. Você cede porque entende o propósito daquela escolha.

E, quando mantém sua posição, não o faz com rigidez ou resistência. Mas sim com clareza e segurança.

O relacionamento deixa de ser um jogo de poder, e passa a ser um espaço de construção conjunta.

Esse terceiro estágio é o estado de maior liberdade emocional. Ele representa um equilíbrio onde podemos navegar entre o nosso desejo e o desejo do outro sem sentir que estamos nos perdendo no processo.

E o que isso tem a ver com o controle?

Muita gente acha que a vida precisa ser rigidamente planejada para dar certo. Mas o que os três estágios nos ensinam é que a vida é um processo de aprendizado contínuo, e não um caminho linear.

Cada vez que tentamos prever e controlar tudo, nos fixamos em um estágio específico e deixamos de fluir naturalmente.

Quem fica no ser-para-o-outro está sempre esperando que o mundo mude para que algo aconteça.

Quem fica no ser-para-si pode acabar preso em um ciclo de autoafirmação constante.

Quem aprende a navegar no ser-para-si-para-o-outro entende que tudo na vida envolve troca, movimento e flexibilidade.

A verdade é que, quando paramos de tentar controlar a vida, começamos a viver de verdade.

Se você está preso no controle, no planejamento excessivo, no medo do imprevisto… talvez seja hora de se perguntar:

• Estou vivendo um processo ou tentando impor um roteiro para a vida?

• Estou preparado para mudar quando for necessário?

• Estou permitindo que novas oportunidades me surpreendam?

A vida tem um ritmo próprio. E quanto mais nos agarramos ao controle, mais resistência criamos ao próprio fluxo do viver.

Então, que tal soltar um pouco o roteiro e confiar mais no processo?

Autoria: Sandra Pierozan