Sucesso é uma daquelas palavras carregadas de relativismo. Neste caso, com toda razão. O sucesso não é só relativo à realização daquele desejo único, idealista, pueril  que cada um tem em destacar-se em um determinado aspecto da vida. Cada qual tem sua visão de sucesso. Mas o alcançar deste pódio também é relativo a um período da vida ou, a vários deles. Olhando de uma maneira mais ampla pra minha biografia eu posso ver que tive sucesso com aquele projeto. Passei três anos sem aprovar nenhum. Voltei com um projeto ainda melhor. Sucesso, neutralidade, fracasso, sucesso de novo, revés, sucesso, fracasso e assim vamos.  Tentando não deixar a peteca cair. E ainda, há um outro determinante do sucesso, mais difícil e ingrato: o sucesso também é relativo ao olhar do outro. A tal da aprovação, aceitação, atração e assim por diante.  

sucesso

Tento sempre imaginar como deve ser a sensação de estranhamento vivida por estrelas ativistas de Hollywood, quando vão a lugares tão longínquos e carentes onde sua fama não significa nada.  Acho que deve ser terapêutica esta trégua. Notoriedade é uma armadilha quem nem todo mundo aguenta viver. Mas isso são graus acima do sucesso. Sucesso que virou fama, e não é mesmo para todo mundo.  Para nós, mortais, o sucesso que alcançamos em uma esfera, não empresta necessariamente sucesso a outra. Sucesso depende de uma batalha hercúlea por uma excelência em um lugar/profissão/carreira/função a nós designada, durante um período, pelo nosso olhar e do grupo que nos cerca.   Sucesso é circunscrito a um momento compartilhado entre nossos pares. 

 

Então temos três peneiras:  a primeira e a relação entre nossos sonhos e esforço de torná-los realidade; a segunda: a narrativa que articulamos sobre nossas vidas e conquistas; e a terceira, completamente impossível de controlar mas passível de nutrir: o olhar do outro sobre nós. 

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Mas quem é este outro? São todos ? Um grupo que elegi como o grupo onde quero fazer sucesso? A turma da adolescência? Aquele sucesso como desforra, justamente pra mostrar para aquela pessoa que você conseguiu. Sucesso  também é, pra muita gente, aprovação virtual. Este outro que olha para esta foto linda de uma prato de salada minuciosamente por mim montado, e me aprova, curte e compartilha . Este outro que está muito longe, nunca nos encontraremos aliás, mas clica um like me aprovando, eu curto o comentário de coração que ele me deixou com um outro coraçãozinho ainda menor. Ele curte que eu curti. Eu fico feliz quando ele faz isso de novo e, pela lei da reciprocidade no nicho, curto sua foto na montanha nevada. E continuamos na curtição até que o algoritmo nos separe. Esta é uma forma de sucesso que a psicologia ainda vai estudar, mas é sem dúvida  tão viciante quanto efêmera. As curtidas de hoje não me farão feliz amanhã.  

 

O sucesso é em retrospectiva. Sucesso não é apenas uma redução da nossa existência a likes, ao dinheiro que conseguimos na esfera profissional, nossas conquistas amorosas ou nosso fama no bairro, sucesso é sucesso como ser humano na construção de uma trajetória. O sucesso é a opinião que as pessoas que mais amamos têm sobre nós .

 

Pagu Leal

Foto: Antonio Wolff

 

Patrícia Pereira, também conhecida no universo da dramaturgia como Pagu Leal, é formada em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná. Entre suas principais pesquisas no campo das Ciências Humanas estão o estudo da Filosofia da Linguagem, Teoria da Comunicação, Neurofilosofia e Cognição.

Em seu trabalho com performance comunicativa enfatiza as peculiaridades de cada pessoa, trabalhando sempre com a bagagem e o conhecimentos de cada indivíduo.